
Receber o diagnóstico de artrose costuma gerar muitas dúvidas. É comum pensar imediatamente em piora progressiva, perda de movimento ou necessidade de prótese.
Mas o diagnóstico, sozinho, não determina como a pessoa vai evoluir nem qual tratamento será necessário.
A artrose pode apresentar diferentes níveis de alteração estrutural, enquanto a intensidade da dor e a limitação funcional variam bastante de uma pessoa para outra. Por isso, duas pessoas com imagens semelhantes podem ter experiências muito diferentes e precisar de planos de tratamento distintos.
Este artigo foi elaborado pelo Dr. Hugo Santiago Souto, CRM MG 54926, RQE 46399 Dor e RQE 56640 Anestesiologia, médico especialista em dor em Montes Claros, para explicar como a artrose é classificada, quais sintomas podem aparecer ao longo de sua evolução e quais estratégias podem ser consideradas em diferentes situações clínicas.
Em resumo
O grau da artrose observado em um exame de imagem ajuda a descrever alterações estruturais da articulação, mas não define sozinho a intensidade da dor nem o tratamento. Sintomas, capacidade funcional, impacto na rotina e resposta aos tratamentos anteriores também precisam ser considerados.
A artrose, também chamada osteoartrite, é uma doença articular caracterizada por alterações progressivas nos diferentes tecidos que formam a articulação.
A cartilagem é uma das estruturas envolvidas, mas a doença não se resume ao seu “desgaste”. Alterações também podem ocorrer no osso localizado abaixo da cartilagem, na membrana sinovial, nos ligamentos e em outras estruturas articulares.
Com a evolução do quadro, podem surgir sintomas como dor, rigidez, redução da mobilidade, dificuldade para realizar determinados movimentos e perda de função.
A osteoartrite é particularmente comum em articulações como:
Idade, predisposição individual, histórico de lesões, excesso de peso, alterações biomecânicas e determinadas formas de sobrecarga podem participar do desenvolvimento e da progressão da doença.
Quando se fala em “grau da artrose”, muitas vezes está sendo utilizada a classificação radiográfica de Kellgren-Lawrence.
Ela é especialmente conhecida na avaliação da osteoartrite do joelho e classifica as alterações observadas no raio-X de 0 a 4, considerando achados como osteófitos e redução do espaço articular.
| Classificação | O que pode aparecer no raio-X | O que isso significa |
|---|---|---|
| Grau 0 | Sem alterações radiográficas características de osteoartrite | O raio-X não demonstra sinais radiográficos da doença |
| Grau 1 | Alterações discretas ou osteófitos de significado ainda duvidoso | Pode representar uma fase radiográfica muito inicial |
| Grau 2 | Osteófitos definidos e alterações estruturais mais evidentes | É considerado um quadro radiográfico definido de osteoartrite |
| Grau 3 | Osteófitos associados a redução mais evidente do espaço articular | Indica alterações estruturais mais avançadas |
| Grau 4 | Redução importante do espaço articular, osteófitos e outras alterações ósseas | Representa a forma radiográfica mais avançada da classificação |
Um detalhe muito importante
Kellgren-Lawrence classifica o que aparece no exame. Ele não é uma escala de intensidade da dor. A imagem contribui para compreender o quadro, mas precisa ser interpretada junto com os sintomas, o exame clínico e a capacidade funcional do paciente.
Não de maneira direta.
Existe associação entre alterações estruturais da osteoartrite e maior probabilidade de sintomas, principalmente nos quadros mais avançados, mas a relação entre imagem e experiência de dor não é perfeita.
Um paciente pode apresentar alterações radiográficas importantes e manter boa capacidade funcional. Outro pode ter alterações menos extensas e apresentar sintomas relevantes.
Isso acontece porque a experiência da dor não depende somente da quantidade de cartilagem presente na articulação.
Inflamação, alterações do osso subcondral, estruturas ao redor da articulação, força muscular, peso corporal, sono, sensibilidade do sistema nervoso e outros fatores podem influenciar o quadro.
O exame mostra
Alterações estruturais, osteófitos, espaço articular e outros achados radiográficos.
O paciente mostra
Dor, rigidez, limitações, capacidade para caminhar, trabalhar, dormir e realizar atividades importantes.
É a combinação dessas informações que orienta a decisão clínica.
Os sintomas variam conforme a articulação afetada e a evolução de cada paciente.
Entre os mais frequentes estão:
Algumas pessoas apresentam períodos relativamente estáveis intercalados com fases de piora dos sintomas.
A pergunta é válida, mas existe uma diferença importante entre grau radiográfico e fase clínica.
Não existe uma regra segundo a qual determinado grau do raio-X obrigatoriamente recebe determinado procedimento. O tratamento é organizado conforme sintomas, função, articulação envolvida, características individuais e resposta às medidas já realizadas.
Uma maneira mais útil de compreender as possibilidades é observar a situação clínica.
| Situação | Objetivo | O que pode fazer parte do tratamento |
|---|---|---|
| Alterações iniciais e poucos sintomas | Preservar movimento e função | Exercício terapêutico, fortalecimento, educação, atividade física e controle de fatores modificáveis |
| Sintomas recorrentes | Controlar sintomas e manter atividades | Reabilitação, exercício, estratégias farmacológicas e outras medidas conforme necessidade |
| Dor persistente apesar do tratamento inicial | Reavaliar a origem dos sintomas e ampliar possibilidades | Revisão do plano, procedimentos selecionados e avaliação de outras estratégias terapêuticas |
| Limitação funcional importante | Reduzir impacto da doença e recuperar capacidade funcional | Tratamento multimodal e avaliação individualizada das opções não cirúrgicas e cirúrgicas |
| Sintomas graves com importante perda de qualidade de vida | Definir se o tratamento não cirúrgico ainda atende aos objetivos | Avaliação conjunta das alternativas disponíveis, incluindo possível encaminhamento para cirurgia quando indicado |
Sim. O exercício terapêutico é uma das bases do manejo da osteoartrite.
Fortalecimento muscular, melhora da capacidade aeróbica, mobilidade e progressão adequada das atividades podem contribuir para reduzir sintomas e melhorar ou preservar a função.
O programa precisa ser adaptado à articulação envolvida, à condição física e às limitações de cada pessoa.
Artrose e exercício
Ter artrose não significa que a articulação precise ser poupada de todo movimento. A dose, o tipo e a progressão do exercício precisam ser adequados ao quadro, mas manter-se ativo faz parte do tratamento.
Para pessoas com osteoartrite associada a sobrepeso ou obesidade, o manejo do peso pode contribuir para reduzir sintomas e melhorar a função, especialmente quando articulações dos membros inferiores estão envolvidas.
No joelho, existe ainda um efeito mecânico importante.
Um estudo biomecânico demonstrou que, em adultos com sobrepeso ou obesidade e osteoartrite do joelho, cada unidade de peso perdida esteve associada a uma redução aproximadamente quatro vezes maior na carga compressiva exercida sobre o joelho durante cada passo.
Em estudo biomecânico com osteoartrite do joelho
1 kg a menos
foi associado a aproximadamente 4 kg a menos de força sobre o joelho por passo.
Isso não significa que toda pessoa com artrose precise emagrecer. A recomendação é especialmente relevante quando existe sobrepeso ou obesidade e deve fazer parte de uma abordagem individualizada.
Procedimentos podem ser considerados em situações selecionadas quando existe uma indicação clínica específica.
Eles não substituem automaticamente exercício, controle dos fatores modificáveis e outras estratégias de tratamento.
Injeções intra-articulares de corticosteroide podem proporcionar alívio de curto prazo em determinados pacientes, especialmente quando existe exacerbação importante dos sintomas ou quando o controle temporário da dor pode facilitar a participação na reabilitação.
O benefício esperado é predominantemente de curto prazo, e a indicação precisa considerar riscos, frequência de uso e situação clínica.
A viscossuplementação utiliza ácido hialurônico aplicado dentro da articulação.
É um procedimento conhecido no manejo da osteoartrite, mas as recomendações não são uniformes entre diferentes diretrizes e sociedades médicas.
Por isso, não deve ser apresentado como uma etapa obrigatória para pacientes com determinado “grau” de artrose.
O Plasma Rico em Plaquetas é obtido a partir do sangue do próprio paciente e tem sido estudado como terapia biológica em diferentes condições musculoesqueléticas.
Na osteoartrite do joelho, há estudos mostrando possíveis benefícios sobre dor e função em pacientes selecionados, mas os resultados variam conforme características dos estudos, técnica de preparo e perfil dos pacientes.
A indicação precisa ser individualizada e não significa regeneração garantida da cartilagem.
A radiofrequência dos nervos geniculares é uma estratégia intervencionista que pode ser considerada para determinados pacientes com dor persistente no joelho.
O procedimento atua sobre nervos envolvidos na transmissão dos sinais dolorosos e não corrige diretamente o desgaste estrutural da articulação.
Por isso, seu objetivo e sua indicação são diferentes dos tratamentos direcionados ao tecido articular.
Não. Apesar de todos poderem aparecer em uma conversa sobre tratamento da artrose, eles atuam de formas diferentes.
| Abordagem | Onde atua | Objetivo principal |
|---|---|---|
| Corticosteroide intra-articular | Dentro da articulação | Controle de sintomas em situações selecionadas, geralmente com efeito de curto prazo |
| Ácido hialurônico | Dentro da articulação | Modificar propriedades do ambiente intra-articular em pacientes selecionados |
| PRP | Região articular ou outra estrutura selecionada | Utilizar mediadores biológicos em condições específicas |
| Radiofrequência genicular | Nervos relacionados à transmissão da dor | Modular a transmissão dos sinais dolorosos |
Por isso, perguntar apenas “qual infiltração é melhor para artrose?” pode não ser suficiente. Primeiro é preciso definir qual problema está sendo tratado e qual é o objetivo daquela intervenção.
Não automaticamente.
A presença de alterações radiográficas avançadas é uma informação importante, mas a decisão sobre uma artroplastia não deve ser baseada apenas em uma pontuação de raio-X.
A avaliação considera principalmente o impacto de sintomas como dor, rigidez, redução de função e deformidade sobre a qualidade de vida, além da resposta ou inadequação das estratégias não cirúrgicas.
Quando esses sintomas comprometem significativamente a vida do paciente e as opções não cirúrgicas deixam de oferecer benefício suficiente, a avaliação para substituição articular pode fazer sentido.
A decisão não começa pelo número do raio-X
“Artrose não tem tratamento.”
Não é correto. Embora a osteoartrite seja uma condição crônica, existem estratégias para controlar sintomas, melhorar a função e reduzir o impacto da doença sobre a vida cotidiana.
“Se o raio-X está muito alterado, preciso operar.”
Não necessariamente. A decisão cirúrgica considera sintomas, função, qualidade de vida e resposta às alternativas não cirúrgicas, além dos exames.
“Toda infiltração estraga a articulação.”
Essa generalização é inadequada. Existem diferentes produtos, técnicas e indicações. Benefícios e riscos precisam ser avaliados conforme o procedimento, a frequência e a condição tratada.
“Quem tem artrose precisa parar de se exercitar.”
Na maioria dos casos, exercício terapêutico adaptado faz parte do manejo. Ele pode contribuir para melhorar dor, força e função.
“Artrose acontece apenas em idosos.”
A frequência aumenta com a idade, mas pessoas mais jovens também podem desenvolver osteoartrite, especialmente quando existem fatores predisponentes.
O tratamento da artrose pode envolver diferentes profissionais conforme o estágio da doença, a articulação afetada e os objetivos do paciente.
O ortopedista tem papel importante na avaliação das alterações estruturais e na definição de tratamentos ortopédicos, inclusive cirurgia quando necessária.
O fisioterapeuta participa da recuperação de movimento, força, capacidade funcional e tolerância às atividades.
O médico especialista em dor pode atuar principalmente quando os sintomas permanecem relevantes, quando existem diferentes mecanismos contribuindo para o quadro ou quando é necessário avaliar estratégias farmacológicas e procedimentos intervencionistas.
Em pacientes selecionados, isso pode incluir avaliação para infiltrações guiadas por ultrassom, bloqueios, procedimentos sobre nervos e outras abordagens.
O objetivo é construir uma estratégia integrada, considerando o que está acontecendo com a articulação e, ao mesmo tempo, como a dor está interferindo na vida daquela pessoa.
A pergunta que orienta o tratamento é:
O que está limitando este paciente hoje e quais estratégias oferecem a melhor relação entre benefício, risco e recuperação da função?
Uma avaliação pode ser útil quando a dor está se tornando frequente, começa a limitar atividades, interfere no sono ou na mobilidade, persiste apesar do tratamento realizado ou gera dúvidas sobre a necessidade de procedimentos ou cirurgia.
Também vale reavaliar o quadro quando existe piora rápida dos sintomas, mudança importante no padrão da dor ou redução progressiva da capacidade funcional.
O Dr. Hugo Santiago Souto, CRM MG 54926, RQE 46399 Dor e RQE 56640 Anestesiologia, atende em Montes Claros, Minas Gerais, com avaliação de pacientes que convivem com artrose e outras condições dolorosas musculoesqueléticas.
Tem artrose e quer entender quais possibilidades de tratamento fazem sentido para o seu caso?
A avaliação considera seus sintomas, exames, limitações, tratamentos já realizados e objetivos para definir quais caminhos podem ser discutidos.
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